“Ana aproveitava os carinhos do mundo.Os quatro elementos de tudo. Deitada diante do mar que apaixonado entregava as conchas mais belas Tesouros de barcos e velas Que o tempo não deixou voltar Onde já se viu o mar apaixonado por uma menina?Quem já conseguiu dominar o amor?Por que é que o mar não se apaixona por uma lagoa?Porque a gente nunca sabe de quem vai gostar”(Ana Paula Mangeon)
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
O homem que tricotava no trem
Ele era um senhor de uns 55 anos. Elegante, usava terno de tweed, boina e sapato lustroso. Deveria estar fazendo seu trajeto usual, porque nem se importava com a cidade passando do lado de fora da janela do trem. Na verdade, sua atenção estava totalmente focada para dentro, para suas mãos, que trabalhavam sem parar, e para as agulhas, que se moviam rápido.
O homem tricotava alheio a tudo, até à moça que estava sentada à sua frente e não conseguia tirar os olhos dele. A moça olhava, fascinada, ora para ele, ora para o trabalho que ele estava fazendo. Era a manga de uma blusa que as agulhas de alumínio faziam. Uma blusa de acrílico preto.
A moça ficou toda a viagem olhando para o homem. Não apenas por cumplicidade, uma vez que tricô é algo que ela gosta e sabe fazer. Mas porque ele era homem. Tricotando. Em público.
Quando a estação dele se aproximou, o homem tratou de tirar do bolso do paletó um par de protetores para colocar na ponta das agulhas. Enfiou seu trabalho cuidadosamente em uma sacola de papel e saiu.
E a moça ficou no vagão, feliz por ter encontrado uma figura que a fez lembrar que artes manuais não levam em conta sexo ou idade. Levam em conta vontade de fazer e nada mais.Vivi Griswold às 08:28 AM
Ele era um senhor de uns 55 anos. Elegante, usava terno de tweed, boina e sapato lustroso. Deveria estar fazendo seu trajeto usual, porque nem se importava com a cidade passando do lado de fora da janela do trem. Na verdade, sua atenção estava totalmente focada para dentro, para suas mãos, que trabalhavam sem parar, e para as agulhas, que se moviam rápido.
O homem tricotava alheio a tudo, até à moça que estava sentada à sua frente e não conseguia tirar os olhos dele. A moça olhava, fascinada, ora para ele, ora para o trabalho que ele estava fazendo. Era a manga de uma blusa que as agulhas de alumínio faziam. Uma blusa de acrílico preto.
A moça ficou toda a viagem olhando para o homem. Não apenas por cumplicidade, uma vez que tricô é algo que ela gosta e sabe fazer. Mas porque ele era homem. Tricotando. Em público.
Quando a estação dele se aproximou, o homem tratou de tirar do bolso do paletó um par de protetores para colocar na ponta das agulhas. Enfiou seu trabalho cuidadosamente em uma sacola de papel e saiu.
E a moça ficou no vagão, feliz por ter encontrado uma figura que a fez lembrar que artes manuais não levam em conta sexo ou idade. Levam em conta vontade de fazer e nada mais.Vivi Griswold às 08:28 AM
...Não sei por que tricotava tanto, eu penso que as mulheres tricotam quando consideram que essa tarefa é um pretexto para não fazerem nada. Irene não era assim, tricotava coisas sempre necessárias, casacos para o inverno, meias para mim, xales e coletes para ela. Às vezes tricotava um colete e depois o desfazia num instante porque alguma coisa lhe desagradava; era engraçado ver na cestinha aquele monte de lã encrespada resistindo a perder sua forma anterior. Aos sábados eu ia ao centro para comprar lã; Irene confiava no meu bom gosto, sentia prazer com as cores e jamais tive que devolver as madeixas. ..(trecho de A Casa Tomada - Cortázar)
domingo, 26 de outubro de 2008
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